quinta-feira, 16 de maio de 2013

Hélio Oiticica - O Tropicalista Anarquista


Hélio Oiticica nasceu no Rio de Janeiro em 1937 e faleceu na mesma cidade em 1980. Neto de anarquista, foi um dos mais importantes artistas brasileiros, revolucionou a arte com suas obras performáticas e experimentais. Fez com que as fronteiras da arte, antes limitada a quadros, esculturas e exposições se expandissem a ponto de todos poderem participar. Helio trouxe para a obra de arte movimento, música e interação com o publico.
Suas obras são compostas por poesias, reflexões, desenhos, geometrias e instalações onde o artista convida o expectador e entrar num universo paralelo explorando as sensações causadas pela obra. Ele inicia seu trabalho na arte concreta, passa pela arte efêmera e manifestações ambientais onde desenvolve um trabalho voltado aos sentidos, voltado à percepção e a interação, já que proporciona ao publico deixar de ser apenas expectador para poder ser participante do acontecimento artístico.
A arte efêmera diferente das obras que são colocadas em paredes e apresentadas em museus, são acontecimentos efêmeros, de duração limitada, que acontecem e acabam, sendo apenas conhecidos através dos tempos por registros fotográficos. Esse tipo de arte deu inicio aos chamados happenings, performances e instalações, criando novas categorias artísticas que revolucionaram o conceito de arte, revolucionando a maneira de se compreender e criar arte, criando hostilidade no mercado de arte.
Os “Metaesquemas” são quadros compostos por pinturas geométricas onde o artista exterioriza a relação entre o espaço pictórico e o extra-pictórico, o espaço em que as figuras são colocadas e organizadas; proporcionam ao espectador uma nova perspectiva cromática. Após este trabalho o artista rompe a fronteira entre o espaço existente no quadro e o espaço ambiental; abandonando um plano de bilateralidade apenas, passando a trabalhar com a tridimensionalidade, apresentado trabalhos como os “Relevos Espaciais” e “Bilaterais”.
Seu trabalho “Núcleos”, também conhecidos como “Manifestações Ambientais o Penetráveis”, são instalações com placas de madeira suspensas, presas ao teto por fios de náilon, que possuem cores quentes, proporcionando uma interação com o espectador no deslocamento das placas e das pessoas, criando uma experiência de exploração das sensações de cada situação.
Os chamados “Parangolés” surgem de uma interação do artista com o Morro da Mangueira. Os “Parangolés” são uma espécie de tendas ou capas de vestir, de varias cores que ao movimento se misturam com a dança, com a poesia e a musica; sendo preciso para a arte existir a execução de pessoas, por se tratar de uma manifestação cultural coletiva. Sobre isso nos fala o próprio artista: “Chamarei então Parangolé, de agora em diante, a todos os princípios formulados aqui... Parangolé é a antiarte por excelência; inclusive pretendo estender o sentido de apropriação às coisas do mundo com que deparo nas ruas, terrenos baldios, campos, o mundo ambiente enfim...”
Após “Parangolé” desencadeiam Manifestações Ambientais onde “Tropicália”, “Apocalipopótese” e “Éden” acontecem.
“Tropicália” é o auge de sua Manifestação Ambiental, tratando-se de uma instalação com um espaço com plantas, superfícies como areia, pedras, poemas espalhados por entre as folhagens, araras; tudo isso proporcionando ao espectador um novo mundo subjetivo advindo do contato de todo contexto, causando sensações de ligação a natureza, sensações agradáveis através do clima tropical criado; e em contraste a isso, ao fundo um televisor sempre ligado. Essa obra foi mal interpretada, mas trata-se de uma das perolas da arte brasileira, considerada até como a arte mais antropofágica da historia. O televisor inserido dentro da instalação, sempre ligado, representa a manipulação do pensamento de massa, do controle da sociedade exercido pelos meios de comunicação, impedido assim o desenvolvimento do sujeito criativo existente dentro de todos os indivíduos, aniquilando as possibilidades de cidadãos capazes de pensar e fazer arte com naturalidade em suas vidas, prejudicando o desenvolvimento de muitas outras habilidades necessárias a qualidade de vida, para cidadãos mais felizes, conscientes, ativos e realizados.
Todo este engajamento no desenvolvimento do pensamento e da arte não agradou a censura instalada no Brasil na ditadura militar, o que causou problemas ao artista que não deixou de desenvolver seu trabalho ligado a cultura brasileira e a ideias inovadoras mesmo longe do Brasil.
Oiticica é um artista no amplo sentido da palavra, que tem grande importância não só pelo caráter inovador de sua arte como também pela sua posição e engajamento político, demonstrando através de sua arte trabalhos que protestam contra um sistema opressor. Foi o que aconteceu em “Homenagem ao Cara de Cavalo” homenagem ao amigo do artista do Morro da Mangueira, em “Tropicália” na exposição Nova Objetividade Brasileira que protesta contra todo o sistema manipulador, enquanto quer criar uma imagem de arte objetivamente brasileira e em “Parangolés” com frases como “Estou com fome” e “Seja marginal, seja herói”.
Helio Oiticica fez de sua vida uma trajetória artística a fim de promover o pensar arte, revolucionando o próprio sentido da arte, colocando-a possível e próxima a sociedade, mostrando que a arte não é limitada a aquilo que todos já esperavam dela; mostrando que a arte acima de tudo é um pensamento, que após idealizado, pode ser executado se utilizando todas as superfícies, espaços, suportes e ideias que se possa imaginar, pois o sentido da arte em primeiro lugar é indagar, revolucionar, criar, ampliar os horizontes, as possibilidades; criando uma interação infinita entre publico, artista, chegando ate a se confundir ludicamente quem é quem, mostrando que todos podem ter arte em suas vidas, todos podem pensar e compreender o sentido dela, e até criar um novo sentido, uma nova forma de representar uma nova ideia. Assim, Oiticica abriu um novo e inesgotável prisma para a arte mundial


 Texto escrito por Renata P. C. Rodrigues



Referencias Bibliográficas:

MATESCO ,Viviane. Corpo cor em Hélio Oiticica. In XXIV Bienal de São Paulo: Núcleo Histórico - Antropofagia e Histórias de canibalismos. São Paulo. p. 386 – 391. 2006.